Ao Sabor do Rio Xingú

Não fui viajar com ribeirinhos. Esse povo mora mesmo é na cidade. Mas sua relação com o rio é íntima. Na verdade alguns passaram a maior parte da vida viajando pelo rio do que "em casa". Novamente, por uns dias o bagaço da civilização ficou para trás. E dessa vez eu estava junto. Subimos o rio Xingu partindo de Altamira (PA) em busca dos peixes. Ficamos ligados ao planeta em seu estado bruto. O sol racha e a chuva molha. O ar não é condicionado. Menos ainda o são piuns, carapanãs e suvelas. O corpo não é malhado, o tônus é natural. Todos comem no mesmo prato. A pátria d’água nos iguala.

Durante estes dias fui um deles. Do rio vinha o peixe e a água. Da mata a banana, o cupuaçu e a castanha. Na bagagem o sal e a farinha. O resto era dispensável. Todo o latim que eu poderia traduzir de nada servia. Eu tinha o abrigo da rede.




A vida no Barco

Lourenço não é seu nome verdadeiro. Assim o chamam por que nasceu no dia do santo. Mas o santo das águas é ele mesmo. É ele quem conduz o “Comandante Azevedo” (sob chuva ou sol, noite ou dia, inverno ou verão, pra cima ou pra baixo) pelas águas do Rio Xingu. Na parede a janela emoldura a paisagem enquanto a viagem segue sob chuva forte e momentos de sol.

A parte alta do barco é a cabine de comando, cozinha e casa da família. Todos são bem vindos se entenderem isso. Tereza e Elisângela, esposa e filha de Lourenço, são peças-chave no barco e merecem esse entendimento. Menino é que se dá bem. Leves, pequenos e ágeis, têm trânsito livre. Gabriel é filho de Elisângela e Carlinhos. Edmundo é o último de Lourenço e Tereza, que ainda levaram o neto Artur.

O barco puxa a voadeira de Lourenço e a canoa do Edilardo. Essa alaga a toda hora e é preciso ir lá esvaziá-la. Serão ferramentas no jogo da pesca. Igualmente importante é o homem que vai ali do lado da máquina. Joaquim tem o privilégio do quarto exclusivo, mas aguenta o barulho e o calor do motor enquanto fica de olho no combustível e no funcionamento da máquina. Coisa fácil pra sujeito de coragem que já viveu anos do garimpo e sobreviveu a incontáveis e inacreditáveis malárias. Ajudar no abastecimento é tarefa de quem estiver disponível. O barco não pára.

Nadábio não levou mosquiteiro e dorme pouco à noite. Souza é o contador de piadas que ensina as artimanhas da pesca pra molecada enquanto a viagem segue entre a copa das árvores afogadas pela cheia do inverno amazônico. Nessa época é pouca a terra alta. Com o barco parado a solução é pescar, preparar o peixe, tomar banho no "flap", contar piadas e causos, consertar motor... O fim da viagem é só alegria. Pra mim, um saudosismo infantil.

                 

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