A Fotografia, o tempo e o vento.

Fotografia é, para mim, tempo. Um vento. O sopro de um momento. Por isso mesmo, antes de mais nada, arte. Expressão de autor. Antes de meio de comunicação, um meio de relação entre o autor e a coisa fotografada.

Quando viajei recentemente para Roraima com minha companheira tive essa nítida sensação. Tínhamos pela frente uns 3 ou 4 dias e nenhum planejamento. Ficamos em Boa Vista uma noite e depois seguimos para a Serra do Tepequém. Por ali muita gente aproveitando o carnaval. No dia seguinte resolvemos seguir até a divisa com a Venezuela. Lá não pudemos entrar por falta do cartão de vacinação contra febre amarela. Retornamos a Boa Vista para no dia seguinte irmos ao Lago Caracaranã.

Nisso já havíamos gasto cerca de 80% de nosso tempo disponível para viagem. Praticamente todo ele passado dentro do carro de lá pra cá e de cá pra lá. Procurava me convencer que valia para termos uma visão panorâmica do nordeste do estado. E eu estava certo.

Como sempre eu saí pra viajar na expectativa de voltar pra casa com inúmeras belas fotos. No entanto, o tipo de fotografia que eu gosto requer parar, montar tripé e tudo mais... ou então, ver uma foto e ficar aguardando o momento certo seja pela luz, por um personagem ou ambos. Enfim, rodando pelo estado dentro de um carro isso não seria possível.

Voltando da Serra do Tepequém tive um surto e resolvi parar pra fazer isso (tripé, lente, filtro...) ao menos um pouco. E foi maravilhoso. Aquela luz, aquele silêncio e (ahhhhhh!) aquela brisa... o tal vento. Coisas que sinto quando olho hoje pra fotografia da serra. No outro dia quando acordei vi que a luz ia vazar brevemente pelas nuvens sobre uma cerca que tinha visto na noite anterior. De novo (tripé, lente, filtro...) e aquela luz, aquele silêncio e (ahhhhhh!) aquela brisa... o tal vento. Mais uma sensação guardada.

Ainda assim não me sentia satisfeito. Faltava aquela coisa mais forte da fotografia que requer envolvimento, relação com a coisa fotografada.

Afinal o Lago Caracaranã. Quando chegamos o pessoal do carnaval já tinha partido. Aquele lago rodeado de montanhas era todo nosso. Silêncio, paz e um tempo morno bem gostoso. Tomamos banho. Sentimos a água e tivemos medo dos seus mistérios. Amamos o lugar. Começava a ver algumas fotos.

Acontece que depois do almoço o tempo virou e choveu muito, muito mesmo. Ficamos de papo com o pessoal da fazenda que estranhava tanta chuva naquela época do ano. Eu não saía da janela na expectativa de o tempo melhorar. No fundo ainda guardava uma esperança, pois o final da tarde sempre pode trazer uma surpresa. E trouxe. A chuva parou e o céu continuou carregado de nuvens pesadas.

Corri para tripé, lente, filtro... e atolei as canelas num matagal à beira do lago ainda morrendo de medo dos seus mistérios. Por ali fiquei a meia hora de luz que ainda restava. Um vento frio e chuvoso e um silêncio absoluto entre minha câmera e a paisagem. Pinto no lixo! Do jeito que eu gosto... o tal vento...

O dia seguinte amanheceu feioso, nublado. Insisti na mesma foto da tarde anterior. Quando vi que ia sair uma luz por uma brecha entre as nuvens fiquei maluco. Ia “resolver tecnicamente” a foto. Mas a que está ai na página é a da tarde anterior. A luz daquela manhã ficou boa para o outro lado do lago; lugar para onde não olhei direito. Estava preocupado com outras coisas. Faltou aquele vento...

Obviamente logo após o café, quando tínhamos que pegar a estrada, o tempo abriu. Um lindo sol me permitia ver diversas fotografias ao longo da estrada.

Logo no começo da viagem ainda avistamos um casal de raposas correndo na estrada. Uma delas parou no mato ao lado. Parei o carro e ficamos fitando a bichinha linda a poucos metros de nós. A luz estava perfeita. Ainda pensei em buscar tripé, lente, filtro... mas me lembrei de um amigo no Pantanal que, ao avistarmos uma onça longe rio abaixo, se preocupou tanto em pegar tripé, lente, filtro... que mal deve se lembrar dela hoje. Nem tive tempo de terminar o pensamento e a bichinha correu.

Tal qual a da onça, guardo até hoje na mente a imagem daquela linda raposa na luz dourada da manhã. Segui viagem sentindo o vento entrar pela janela.

Alexandre Berner, 02/2008